A invisibilidade lésbica afeta a vida de muitas mulheres brasileiras que, em seu cotidiano, estão expostas tanto à violência física quanto à psicológica, seja no âmbito familiar e privado, seja no trabalho, na universidade, nos serviços de saúde. Muitas vezes, a invisibilidade está presente inclusive nos espaços de militância política.

Nesta quinta-feira, 29 de agosto, comemora-se no Brasil mais um Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. A data foi criada durante a realização do primeiro Seminário Nacional de Mulheres Lésbicas (Senale, atual Senalesbi), em 1996, e vem de uma demanda histórica das mulheres lésbicas: serem visíveis. Isso significa lutar para que suas experiências afetivas não sejam apagadas e que, quando reconhecidas, não terminem em episódios de violência lesbofóbica.

Nesta data, a mobilização tem o objetivo de dialogar com a sociedade e denunciar a morte de mulheres lésbicas como Luana Barbosa, mulher negra e periférica que foi espancada e assassinada em 2016, aos 34 anos, por policiais militares.

Segundo um levantamento do portal Lésbicas Que Pesquisam, neste ano, são mais de 80 eventos organizados no país relativos ao Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Em São Paulo, um ato está marcado para começar às 18h, com concentração na Praça do Ciclista, na região da Avenida Paulista.

Da resistência contra a ditadura à luta contra as violências e retrocessos que vive hoje o país, o Brasil de Fatoconversou com três militantes sobre suas vivências e atuais desafios para o movimento lésbico.

Décadas de luta

“Sou de uma geração que foi acostumada a tentar não ser muito visível publicamente”, diz Ana de Oliveira, de 60 anos. Contando sobre seu processo de reconhecer-se lésbica, a professora aposentada da Faculdade de Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp) reflete como o passado se imbrica com o momento presente do país.

“Fui acostumada a não ser muito visível na expressão do meu afeto em público. Isso é ruim, mas eu te digo que, hoje, com o crescimento da homofobia, eu me sinto um pouco mais segura por isso. Eu não acho que é bom me sentir segura nesse momento.”

Ana de Oliveira assumiu publicamente sua sexualidade nos anos 1980. Foi na mesma época em que aconteceu um episódio protagonizado por lésbicas organizadas que ficou conhecido como “Stonewall brasileiro”, em referência a uma revolta que aconteceu nos Estados Unidos nos anos 1960 e deu um pontapé na luta pelos direitos LGBT.

No episódio brasileiro, em 1983, ainda durante a ditadura militar, ativistas do Grupo Ação Lésbica Feminista (Galf) e outras militantes convocaram uma manifestação política em um bar na região central de São Paulo – o Ferro’s bar – após serem proibidas de frequentar o espaço por distribuir publicações sobre o tema da visibilidade.

Relembrando a época e comparando-a com o momento atual, Ana Oliveira considera que o país enfrenta hoje retrocessos com o desmantelamento de políticas voltadas para a população LGBT.

“Eu vejo o atual momento político com muito cansaço”, desabafa. “Eu achei que essas questões estavam superadas de alguma maneira, mas de 1983 – evento Ferro’s Bar – até 2010, 2012, eu acho que a gente vinha num crescente de condições melhores para viver nossa afetividade.”

“Claro que tinha retrocessos, mas a gente vinha ganhando terreno”, acrescenta a professora aposentada. “Então eu achava que a gente estava em um processo de avanços contínuos. Não achava que a gente fosse dar de cara com esse retrocesso.”

Ana cita a retirada da população LGBT das diretrizes de direitos humanos do atual Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos no início do governo de Jair Bolsonaro, e constantes declarações homo e lesbofóbicas por parte do presidente. A mais recente, relativa à seleção de filmes com temática LGBT em um edital para TVs públicas, em edital suspenso pelo governo no último dia 21.

“Dá um pouco de cansaço, porque, tendo participado de todas essas lutas anteriores, porque já brigamos tanto e temos que brigar tudo de novo, dá cansaço, mas não desânimo. Estou cansada, mas vou continuar lutando”, afirma a professora.

Arte, pesquisa e militância

Nascida no Jardim Ângela, na zona Sul de São Paulo, Aline do Nascimento, de 28 anos, é conhecida como poeta Formiga. Ela conversou com o Brasil de Fato sobre a invisibilidade vivenciada em seus espaços de atuação.

“Dentro do meu meio, da literatura periférica, é nítido como a minha poesia não reverbera no ambiente em que eu aprendi a escrever, a ser poeta, a recitar. E isso eu acho que é uma lesbofobia”, afirma.

Atualmente estudante de História da Unesp, Formiga relata também que, no espaço da universidade, já foi tratada como homem por não se identificar com símbolos e estereótipos relacionados com a mulheres, algo que considera uma expressão de violência lesbofóbica.

“Na faculdade já aconteceu de professores me chamarem de nomes masculinos na frente de toda a turma e, para mim, isso é uma forma de invisibilidade, não perguntarem como me sinto, como me nomeio, são coisas que me incomodam no momento”.

A invisibilidade marca também a experiência de Maria Eduarda Magro, de 21 anos, estudante de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

“Sinto isso na minha experiência pessoal. Apenas uma pequena parcela da minha família sabe que sou lésbica e, quando participo de algum evento sobre sexualidades dissidentes, o que pauta é sempre a experiência dos homens gays. A invisibilidade está na teoria, na televisão, no seio familiar, está espraiada em toda a sociedade”, critica.

Lésbicas que pesquisam

Buscando combater o apagamento e os estereótipos em relação à homossexualidade feminina, mulheres lésbicas têm organizado diversas iniciativas para visibilizar a existência lésbica.

Uma delas é o projeto Lésbicas Que Pesquisam, do qual Maria Eduarda é coordenadora. A iniciativa busca visibilizar a produção científica de mulheres lésbicas nas mais diversas áreas em um portal que será lançado nesta quinta-feira (29).

A motivação para construir a plataforma veio da necessidade de mostrar a atuação das mulheres lésbicas na universidade, em um ambiente onde, “além de enfrentarem toda a dificuldade de serem pesquisadoras mulheres no ambiente acadêmico, que ainda tem seus departamentos bastante machistas, enfrentam as suas vivências enquanto lésbicas na universidade”, explica a estudante.

Movimento lésbico e resistência democrática ontem e hoje

Algumas dessas pesquisas acadêmicas buscam recuperar a história do movimento lésbico brasileiro, muitas vezes apagada nas narrativas sobre a formação do movimento LGBT no país, que privilegiam as organizações e iniciativas gays masculinas, como comenta Formiga.

“Historicamente, as lésbicas sofreram misoginia no movimento de libertação gay e lesbofobia dentro do movimento feminista. Então foi muito necessário que as lésbicas se organizassem para pautar suas questões, e tem mais de 50 anos que o movimento lésbico começou no mundo. Mesmo assim, as pautas das lésbicas continuam invisibilizadas dentro desses movimentos”, lembra a poeta.

Maria Eduarda, que não viveu o período ditatorial como a professora Ana de Oliveira, reverbera a mesma sensação de medo e fragilização da democracia desde a eleição de Jair Bolsonaro (PSL).

“A própria noção de democracia está sendo lentamente desfeita neste país. E penso muito, além do governo de Bolsonaro, há a questão da eleição que é muito preocupante, que traz essa questão do medo que retorna na sociedade porque foi uma eleição pautada em muito ódio e agressividade, ataques, ameaças e mentiras voltados para públicos específicos”, ressalta a estudante de História.

Produção de conhecimento e resistência

Neste contexto, as três militantes – Ana, Maria Eduarda e Formiga – consideram que a invisibilidade e a violência lesbofóbica estão longe de ser superadas e, assim, a visibilidade lésbica é um tema central em 2019.

Por isso, para Formiga, o dia 29 de agosto é uma data para dialogar com a sociedade e denunciar a morte de mulheres lésbicas como a de Luana Barbosa.

“Acho muito importante falar com a sociedade também neste 29, na rua, sobre a questão do lesbocídio. Temos diversos casos, o mais emblemático o da Luana Barbosa, uma lésbica negra brutalmente assassinada pela polícia, e nós conhecemos a história dela, muitas pessoas e ativistas dão visibilidade para o caso, mas nossas mortes ainda são invisíveis”, avalia a artista.

Maria Eduarda, a estudante de História, considera a publicação do Dossiê Lesbocídio, relatório lançado em 2018 pelo Grupo de Pesquisa Lesbocídio, do Núcleo de Inclusão Social (NIS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ), como um marco importante para dados sobre a violência contra mulheres lésbicas no Brasil.

“Graças ao dossiê, temos um nome para poder falar das que foram violentadas. Então é fundamental colocar essas questões na rua e para a sociedade”, comenta.

Pesquisas como a realizada pelo NIS estão sob ameaça após anúncios do corte de verbas do Ministério de Educação (MEC) e ao clima de perseguição política que tem se instaurado nas universidades públicas brasileiras contra professores e pesquisadores. Os estudos sobre gênero e sexualidade são alvos de desqualificação do presidente Jair Bolsonaro e de sua equipe ministerial.

“Frente às constantes ameaças que estamos vivendo, especialmente na universidade pública, a pesquisa acadêmica se torna uma importante e urgente manifestação de resistência”, ressalta Maria Eduarda. “Está em xeque o acesso universal e gratuito ao ensino superior, as bolsas estão sendo extintas, a permanência está impossibilitada e tudo isso é parte de um projeto político organizado e pensado para atacar a universidade.” É por isso que ela acredita que a produção científica é um ato de resistência, ao defender uma universidade plural e democrática.

“É uma resistência e um esforço muito grande. Por isso é preciso lembrar da importância da pesquisa científica, para lembrar que a produção da universidade é o que vai nutrir a sociedade. Então é um momento de lembrar a premissa de levar o conhecimento pra fora da universidade e difundir o que está sendo produzido e debater a importância da pesquisa seja em qual área ela for”, defende Maria Eduarda.

No âmbito universitário, as militantes consideram que ainda existem muito desafios, tanto no reconhecimento dos diversos grupos sociais que compõem o ambiente acadêmico, quanto na produção de pesquisas voltadas para temas relacionados à visibilidade lésbica.

“A universidade, embora seja teoricamente um espaço de acolhimento, ela também tem sua face homofóbica, sua face machista”, afirma Ana de Oliveira. “Eu me lembro de estar na faculdade e ter professores ofendendo mulheres lésbicas, e a universidade sempre foi um ambiente muito machista e também homofóbico, essas coisas nunca andam sozinhas. Então eu acho que do tempo que eu tava na faculdade como aluna e o tempo como professora, houve uma mudança muito grande na inclusão desse tipo de tema como um tema sério de pesquisa. E eu acho que isso tem que ser mantido. Vamos ter sanções e represálias desse governo, mas acho que é importante, é uma frente de luta e não podemos deixar isso de lado.”

Retomando a construção de conhecimento como uma proposta política do movimento lésbico desde suas origens, a poeta Formiga considera que, diante do atual desmonte da universidade pública, é preciso investir em formas autônomas de difusão de conhecimento e criar pontes entre o conhecimento acadêmico e a experiência militante.

“Se não for pela academia, vamos resistir de forma autônoma, estudando por nós mesmas e criando meios de difusão, com fanzine, livro artesanal. Temos instrumentos, apesar de ser uma difusão muito menor. Mas é um modo de resistência também”, ressalta a artista e estudante universitária.

Por Brasil de Fato

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